Vinte anos – Vinicius de Moraes

VINTE ANOS

Rio de Janeiro , 1933

Pela campina as borboletas se amam ao estrépito das asas.
Tudo quietação de folhas. E um sol frio
Interiorizando as almas.

Mergulhado em mim mesmo, com os olhos errando na campina
Eu me lembro da minha juventude.
Penso nela como os velhos na mocidade distante:
— Na minha juventude…

Eu fui feliz nesse passado grato
Viviam então em mim forças que já me faltam.
Possuía a mesma sinceridade nos bons e maus sentimentos.
Aos frenesis da carne se sucediam os grandes misticismos quietos.
Era um pequeno condor que ama as alturas
E tem confiança nas garras.
Tinha fé em Deus e em mim mesmo
Confessava-me todo domingo
E tornava a pecar toda segunda-feira
Tinha paixão por mulheres casadas
E fazia sonetos sentimentais e realistas
Que catalogava num grande livro preto
A que tinha posto o nome de Fœderis Arca.

A minha juventude…
Onde eu seguia ansioso Tartarin pelos Alpes
E Júlio Verne foi o mais audaz de todos os cérebros…
Onde Mr. Pickwick era a alegria das noites de frio
E Athos o mais perfeito de todos os homens…
A minha juventude
Onde Cervantes não era o filósofo de D. Quixote…

A minha juventude
E a noite passada em claro chorando Jean Valjean que Victor Hugo matara…

Como vai longe tudo!
Pesa-me como uma sufocação meus próximos vinte anos
E esta experiência das coisas que aumenta a cada dia.

Medo de ser jovem agora e ser ridículo
Medo da morte futura que a minha juventude desprezava
Medo de tudo, medo de mim próprio
Do tédio das vigílias e do tédio dos dias…
Virá para mim uma velhice como vem para os outros
Que me dissecará na experiência?

Da campina verde voaram as borboletas…

Só a quietação das folhas
E o meu turbilhão de pensamentos.

Valsa do amor de nós dois – Vinicius de Moraes

VALSA DO AMOR DE NÓS DOIS

Rio de Janeiro , 2004

Vem ver o mar
Vem que Copacabana é linda
Vamos ser só nós dois
E o que vai ser depois
É melhor, é melhor nem pensar

Ah, namorar!
Os casais nem parecem saber
Nos seus beijos de amor
E o que resta depois
É a valsa do amor de nós dois

Pelas linhas sinuosas
Do passeio à beira-mar
Todo o Rio de Janeiro
Vai querer dançar

E nós, depois
Partiremos num beijo de luz
Pelo céu ao luar
A dançar, a dançar
Esta valsa do amor
De nós dois

Soneto do amor demais – Vinicius de Moraes

SONETO DO AMOR DEMAIS

Rio de Janeiro , 2004

Não, já não amo mais os passarinhos
A quem, triste, contei tanto segredo
Nem amo as flores despertadas cedo
Pelo vento orvalhado dos caminhos.

Não amo mais as sombras do arvoredo
Em seu suave entardecer de ninhos
Nem amo receber outros carinhos
E até de amar a vida tenho medo.

Tenho medo de amar o que de cada
Coisa que der resulte empobrecida
A paixão do que se der à coisa amada

E que não sofra por desmerecida
Aquela que me deu tudo na vida
E que de mim só quer amor – mais nada

Soneto do amor como um rio – Vinicius de Moraes

SONETO DO AMOR COMO UM RIO

Montevidéu , 1962

Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

Soneto de véspera – Vinicius de Moraes

SONETO DE VÉSPERA

Oxford , 1939

Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou – fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida…

Oxford, 1939

As mulheres ocas – Vinicius de Moraes

AS MULHERES OCAS

Rio de Janeiro , 1962

Headpiece filled with siraw
T.S. Eliot, “The Hollow Men”

Nós somos as inorgânicas
Frias estátuas de talco
Com hálito de champagne
E pernas de salto alto
Nossa pele fluorescente
É doce e refrigerada
E em nossa conversa ausente
Tudo não quer dizer nada.

Nós somos as longilíneas
Lentas madonas de boate
Iluminamos as pistas
Com nossos rostos de opala.
Vamos em câmara lenta
Sem sorrir demasiado
E olhamos como sem ver
Com nossos olhos cromados.

Nós somos as sonolentas
Monjas do tédio inconsútil
Em nosso escuro convento
A ordem manda ser fútil
Fomos alunas bilíngües
De “Sacre-Coeur” e “Sion”
Mas adorar, só adoramos
A imagem do deus Mamon.

Nós somos as grã-funestas
Filhas do Ouro com a Miséria
O gênio nos enfastia
E a estupidez nos diverte.
Amamos a vida fria
E tudo o que nos espelha
Na asséptica companhia
Dos nossos machos-de-abelha.

Nós somos as bailarinas
Pressagas do cataclismo
Dançando a dança da moda
Na corda bamba do abismo.
Mas nada nos incomoda
De vez que há sempre quem paga
O luxo de entrar na roda
Em Arpels ou Balenciaga.

Nós somos as grã-funestas
As onézimas letais*
Dormimos a nossa sesta
Em ataúdes de cristal
E só tiramos do rosto
Nossa máscara de cal
Para o drinque do sol posto
Com o cronista social.

* Uma das categorias da Nova Gnomônia, de Jayme Ovalle, que classifica os seres e as coisas em: datas, parás, mozarlescos, kernianos e os onézimos, sendo estes conhecidos “pés-frios”. Para maiores esclarecimentos, ver o capítulo [a crônica] “A Nova Gnomônia” em Crônicas da província do Brasil, de Manuel Bandeira.

A noite gargalha… os grilos… – Vinicius de Moraes

A NOITE GARGALHA… OS GRILOS…

Rio de Janeiro , 2004

A noite gargalha… os grilos
Trilam, trepidando as águas
As águas correm nos trilos
Em preces cheias de mágoas

Na solidão desse pranto
Cheio de pressentimento
Meu tédio morre de espanto
Para ouvir cantar o vento

E o vento desce profundo
Misterioso, gelado
O vento vem de outro mundo
Como uma voz do passado

Quem morreu?

A música das almas – Vinicius de Moraes

A MÚSICA DAS ALMAS

Rio de Janeiro , 1935

Le mal est dans le monde comme un esclave qui monte l’eau.
Claudel

Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma
E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangularam a terra…

Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos…
Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o alto
Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.

A morte do pintainho – Vinicius de Moraes

A MORTE DO PINTAINHO

Rio de Janeiro , 1970

Quem matou o pintainho?
Eu, disse o pato
Com meu pé chato
Eu matei o pintainho.

Quem viu ele morto?
Eu, disse o mocho
Com meu olho torto
Eu vi ele morto.

Quem chupou seu sangue?
Eu, disse o morcego
Que não sou cego
Eu chupei seu sangue.

Quem lhe deu mortalha?
Eu, disse a aranha
Com teia e artimanha
Eu lhe dei mortalha

Quem vai ser o padre?
Eu, o louva-a-deus
Em nome de Deus
Eu serei o padre.

Quem será o sacrista?
Eu, disse o frango
Com a minha crista
Eu serei o sacrista.

Que leva o caixão?
Eu, disse o gavião
Sei bem porque não
Eu levo o caixão

Quem será o coveiro?
Eu, a toupeira
Eu que sou coveira
Eu serei o coveiro.

Quem fará o túmulo?
Eu, disse o joão-de-barro
Pois que tenho barro
Eu farei o túmulo.

Quem leva a vela?
Eu, o vaga-lume
Eu acendo o lume
E eu levo a vela.

Quem vai cantar?
Eu, o pardal
La-la-ri-la-ra
Eu sei cantar.

Quem leva as coroas?
Eu, disse o cisne
Já que não dou rima
Eu levo as coroas.

Quem toca o sino?
Disse o suíno:
Eu mais o boi
Nós tocamos o sino.

Quem vai na frente?
Eu, o periquito
Porque sou bonito
Eu vou na frente.

Todo o pássaro do ar
Foi chorar lá no seu ninho
Ao ouvir tocar o sino
Pelo pobre pintainho.

Clube do Gueto