Indicação literaria

Olá leitores e leitoras de plantão!! Tudo bem? Hoje resolvi trazer a indicação de um conto que li.

🌼 Título: Cinquenta dias 🌼 Autora: Danielli Gomez 🌼

🌼Sinopse🌼

Egoísta, tendenciosa, arrogante e gananciosa. Eloise achava que tinha o mundo aos seus pés. Com um bom emprego e sempre rodeada de amigos para farrear, Elô se afastou de seus pais e cortou relacionamento com todos de sua vida. Achando-se dona do mundo, ela nunca se preocupou com o seu futuro, até a vida vim e lhe derrubar. Como consequência de seus atos, Eloise acabou perdendo o emprego e logo em seguida, uma tragédia veio para acabar com toda a sua felicidade.
Foi quando se viu sozinha no mundo e completamente falida. Mas mesmo com a fé abalada, Elô não desistiu até se ver diante de um dos piores cenários no mercado de trabalho. Ela realmente achava que com sua beleza e experiência, arrumaria um emprego facilmente, mas isso não aconteceu. E durante um ano, continuou mantendo a vida no mesmo patamar que vivia antes. Já sem saber o que fazer, Elô retorna para a casa herdada de seus pais e reencontra com seu antigo vizinho que, claramente, ainda a odeia. Diego não esconde a mágoa que sente pelo que Elô o fez no passado e declara uma guerra aberta contra ela. Em cinquenta dias, Eloise se vê sendo quebrada e reconstruída. E isso a ensina que todos os seus atos têm consequências. E que algumas dificuldades foram compradas pelas suas próprias mãos.
Um conto que irá te fazer refletir sobre os seus atos e repensar em como se deve tratar as pessoas que estão a sua volta.

🌼Motivos para se ler🌼

📃Por se tratar de um conto a leitura é rápida e gostosa.

📃Nos faz refletir sobre a importância da família e sobre as consequências dos nossos atos.

📃E que independente das circunstâncias devemos segui

CHAMADA para Antologia de TERROR PARAENSE

Uma das mais recentes editoras que surgiram no cena paraense – a Pará.grafo editora – está trazendo uma chamada para a inscrição de material inédito no gênero conto-terror. Uma ótima oportunidade para jovens (ou nem tanto assim) escritores divulgarem seus trabalhos.

Texto retirado do instagram da editora:

Iniciaram as inscrições para a antologia de contos TERROR NA AMAZÔNIA. 🕷☠️👹🧟‍♀️
.
Participe! As inscrições vão até o dia 20 de agosto de 2019. Veja o regulamento no site:
https://www.e-paragrafo.com.br/blog
.
A Amazônia é um mundo místico e desconhecido, lar de inúmeras criaturas hostis e — dizem — sobrenaturais. Durante séculos, histórias foram contadas sobre cobras gigantes que habitam o fundo dos rios, animais selvagens que espreitam da escuridão da selva, entidades não humanas que assombram os moradores das aldeias e vilas. Figuras lendárias como Saci, Matinta Pereira, Mapinguari, Sereias e Muiraquitã estão presentes no imaginário e nos pesadelos daqueles que vivem embrenhados nesse universo.
.
A antologia TERROR NA AMAZÔNIA, organizada pelo escritor e editor Girotto Brito, busca contos (inéditos!) sobrenaturais, de terror, horror cósmico e suspense, que sejam ambientados na Amazônia e/ou narrem as lendas amazônicas em suas versões mais sinistras e amedrontadoras.

 

[Uma reportagem de Baleia, a cadela]

Um breve desabafo…

Já pensaram em viver em um mundo sem palavras? Um mundo sem vírgulas ou pontos? Um mundo sem rimas ou poesias? Sem estrofres ou parágrafos? Sem capas nem lombadas? Sem escritores ou leitores?

Seria um mundo tão triste, não acha? Sem contos de fadas, sem histórias de aventura e heróis, sem palavras apaixonadas proferidas por casais em uma grande trama romântica… Tudo seria um grande e completo nada.

Me apavora sequer pensar em viver em um mundo, em que um dia, não exista mais livros nem histórias…

Que os livros e os contos existam por muito mais tempo que a humaninade. Assim os nossos sonhos e nossa imaginação permanecerão eternos nos nossos corações.

Fumaça no Quintal [trecho de conto]

[Olá pessoal! Mando o inicio de um conto meu “Fumaça no Quintal”, escrito lá por 2017/2018. Espero que apreciem!]

 

FUMAÇA NO QUINTAL

Mais um dia canhestro arremedando os anteriores. Prometendo surpresas raquíticas e inúteis, como uma chuvinha fraca no ardor da tarde, que nem pra fazer aparecer um meio arco-íris se presta. Foi o que pensei ao despertar. Acordei devia ser umas seis horas; pelas frestas do telhado já se notava uma luz cinzenta, fria e pálida (havia outros adjetivos para a luz só que menos eloquentes e que não têm porque fazer figuração neste relato. Quer dizer… escrevi sem pensar. Isto é um relato? Não sei ao certo. Desconheço acertos. Há erros, isto sim, isto é a verdade) Mais uma hora e me levanto, pensei. Despertar adiando, eis a tragédia capenga que rasteja incessantemente pelos meus dias, como um mendigo perambulando sempre pela mesma área, no mesmo ponto.

Alguém passa/Pensando/No eterno.

Montei e desmontei esses versinhos. Não lembro onde que eu li isso, certamente sobejo de algum poeta frustrado, um desses tipos que servem pra engrossar volume de antologia literária regional. O que significava? Aí surgiu o sol dourando sem literatura, senti uma frescura nos ossos dos pés e me espichei como um gato. Não gosto de gatos, são muito indolentes pro meu gosto; entretanto, possuem uma sensualidade assustadora que me excita mais do que devia. Com cuidado, o pé procurou as sandálias pelo chão frio, se meteu debaixo da cama, vacilante, a areia fininha grudando desde cedo nos dedos, irritante! O pé esquerdo encontra a sandália do direito.

Pulei da cama, escancarei as janelas e dei uma mijada, por ali mesmo, no quintal. Formou um laguinho e as formigas, curiosas, vieram logo dar uma espiada. Averiguaram a jazida cor de amarelo-ovo-cozido, pareciam interessadas em transportar o liquido para a artéria de terra instalada na parede. Na verdade tal túnel era de propriedade dos cupins: trabalharam, projetaram e, por muitos anos, utilizaram-no para o interesse de seu povo. Até que veio a peste e dizimou tudo quanto era espécie destes nobres bichinhos da terra, desta pelo menos, e sobrevieram as formigas com discreto gesto de ocupação dos empreendimentos, que os cupins, gênios incompreendidos mesmo depois de mortos, relegaram ao quintal de casa.

É uma bela história, mas como termina? Cheguei à conclusão: história nenhuma possui desfecho; mas isso não me consola. Lentamente fui peneirando a ideia de incompletude, queria ver onde ia dar, mas o pensamento acabou adentrando num atalho obscuro. Aí a velha gritou meu nome, já tinha preparado o café. A velha. Ela é muito esquisita, coitada, parece uma meia suja esquecida num sapato velho, não vai para a igreja como todas as velhotas daqui, tampouco se dá com elas, possui até certo desprezo, sempre diz que não é nem uma galinha de cu caído pra ficar cacarejando alto em missas, cantando piedade, alteando glórias, ciscando salvação. Sua cara é tão cheia de dobras que parece a escadaria larga de algum antigo templo, oculto da vista de tudo e todos, quase não sai desta propriedade que herdou de um parente desconhecido que já morreu. Não sei o que esta velha é para mim; a estimo muito, claro, mas desconheço qualquer nó de sangue que nos una. Desde que me lembro sempre a chamei pelos mais variados nomes: tia, avó, tia-avó, mãe, senhora; e desconfio que se começasse a chama-la de cachorro, periquito, papagaio, saúva, não estranharia nada. É sobretudo uma mulher singular.

Olho novamente pela janela. A imagem do quintal me deixa melancólico, ainda mais quando é cedo ou tarde demais. Parece uma pintura, mas é uma imagem única, de tal modo, que nunca deve ter sido pintada. Como não nasci com mão para aquarelas, mas sim para querelas, tentarei na medida do possível (ou seja: até que a tarefa se torne aborrecida e eu vá procurar fazer outra coisa) descrevê-la tendo a melhor das intenções, que é não a de ser fiel a realidade, mas a de transmitir nitidamente o contorno sombreado e impreciso das plantas, pedras e do pau seco ao centro, antigamente um jambeiro infrutífero. Da janela onde, privilegiadamente, revejo a paisagem naturalmente domesticada chamada de quintal, observo o muro baixo, passarela para as gatas da vizinha, ponto de pouso para os passarinhos e autoestrada para os ratos. Um muro, em sua quase totalidade, úmido pelo contato tão próximo das plantas que o roçam obscenamente em seus cantos mais escuros. As bordas do terreno se mostram taludas e florescentes; o centro é mais seco, daninhas pisadas e lascas de lajotas. De vez em quando um novo vulcãozinho expelindo saúva fresca, situado pelo toco do jambeiro. Ex-jambeiro. Alma morta.

 

O pires da xícara está desaparecido. Tomo café com bolacha Marília. A Tia (hoje vou chamar a Velha de Tia) A Tia ficou puta quando reparou a embalagem com os dizeres: BOLACHA MARÍLIA, TORRADINHA “Desde quando a gente come isso aqui em casa?” Pergunta natural, mas ela falou com tal rompância, com tanto condimento de brutalidade, que fiquei caiado de espanto. “Esta marca…” Pegou uma do pacote e levou á boca. “Bolacha velha ruim. Disse que era pra comprar a outra costumeira” Pois nem reparei a diferença. O que é que a bolacha tem? Vejo sua fachada: cinco andares, cada andar com cinco janelas, totalizando 25 aberturas, que alimento mais arejado!  E a tia mesmo assim a despreza! Qual a opinião das formigas sobre isto? Corri para o quarto com migalhas na mão. As pequenas haviam desaparecido, e o meu xixi, ao que tudo indicava, a terra já bebera.

A manhã está á toda: a luz acorda por completo, as sombras se espreguiçam em frente dos muros, das árvores e de outros troços mais absurdos. Não há mais tempo a perder para alguns, há tempo suficiente para outros, e – todos – contam com ele.

Vasculhei o dia.

Interessado no assassinato da barata. Corpo encontrado num balde d’água, boiando, umbigo pra cima, líquido branco recobria parte de sua face; a morta apresentava sinais de decomposição, antenas separadas da cabeça, dois gravetos flutuando na água. Daqui dá pra espremer uma história, pensei. Á maneira daqueles programas de TV em que aparecem mortes sobre mortes, como se fossem enredos por cima de enredos, empilhados, tantas versões. O melhor é os desaparecidos: com quem por último? Era famoso? As câmeras de segurança! Será que o próprio parente… Há, barata! Sua morte não me diz nada, mas a história por trás… qual será?

De repente o ar se torna nublado. A vizinha botou fogo nas folhas secas, já é a segunda vez que faz isso nesta semana, parece até que tem tanta coisa pra queimar. “Essa afrescalhada tem mais que fazer não? Acabei de pendurar as roupas… Ora merda” Pobre Tia. Impossível continuar no quintal. Dentro é quase tão insuportável como fora de casa, a fumaça espessa, indeciso se fechava ou abria as janelas, prendo a respiração, fecho os olhos, sufoco. “Como fede! Aposto que tá queimando papel de bunda, como a pessoa pode ser tão ordinária, menina?” Será? Analisando o muro, há vários buracos secretos, me aconchego numa vista para receber á imagem do quintal alheio. A vizinha: nunca pessoalmente. Ela queima com prazer, os braços estendidos, como se glórias desse, a quem? Cai um cisco no olho, coça, esfrego num murro, nada enxergo.

 

Atravesso à tarde que nem uma osga sem rabo enfrenta o descampado da parede, devagar quase parando. No centro da mesa da cozinha, a garrafona de água suava. Apesar da quentura infernal o liquido estava por demais gelado, desceu ralando o joelho da minha garganta. Dor de cabeça deixou a vontade mofina, larguei um sono ali mesmo na cozinha, encostado ao fogão. Sono de pedra, sonho de musgo. A dormida durou até a boca da noite se alastrar num sorriso de estrelas. Nestas horas sempre me detenho na vaga sensação de desperdício; saio para o quintal, me vejo mijando nas teias de aranha abandonadas, construídas sobre as plantas da Tia. Engraçado, o laguinho brilha como se estivesse de manhã. O rebanho de formigas se achega, rebanho não, multidão. Mesmo na escuridão da de ver o montueiro, se espraiando em torno do meu ouro morno. Carregam cuias minúsculas, pouco a pouco, mas ligeiramente, rebocam todo o meu xixi. Vão seguindo. É bonito. Lembra a procissão luminosa de Nossa Senhora, ou um bando de vagalumes aleijados da asa caminhando de emigração. Em que direção? Uns vão para o jambeiro, ex-jambeiro, pau-seco, enfim. Outros se dispersam pelas veias da terra, e ainda há um grupo que se direcionam ao muro, para a casa da vizinha. A fumaça recomeça. Entro em casa. Acendo a luz e fecho as portas e janelas.

Raul Lucas Padilha Costa