Encontro, de L. A. Freire

Andava pelas sombrias e escuras
A névoa e o frio congelando, as ruas
Com uma garrafa de tinto tateando ia
Na solidão, para casa entre as sombras seguia
 
Cansado, os becos parecendo intermináveis
Becos sujos, minha mente em alucinações inimagináveis
Da escuridão uma voz rouca se fez ouvir
“Giordano, porque estás tão tarde a vir?”
Era um velho mendigo, todo sujo ao relento
Ao ver-me levantou-se querendo atento
“Procurei-te por horas, meu caro amigo
Sentei-me aqui a esperar falar contigo
O mendigo, já não o era, mas galante
Com roupas bem feitas e um falar interessante
Andamos por ruas, para mim tão estranhas
Que nada reconhecia, nem as margens vizinhas
O homem cortês guiava-me lento
Perguntava d’minha vida, se passava tormento
Se era feliz, se acaso tinha um’amada
E o que pensava dos bailes, das festas, do nada
“Giordano sou, tu sabes bem,
Tinha uma bela esposa que a Morte hoje tem
Desde lá não vivo senão a sofrer, meu caro
E ir à bailes e festas é meu ato mais raro
A caminhada parecia não terminar
Meus ossos doíam pelo frio e pelo andar
Até pararmos defronte dum lugar funesto
Onde querendo ir eu à casa, não fazia um gesto
E foi lá, sim, quando a Lua brilhou mais
E seu brilho fez surgir um temor e terror fatais
O tal homem, com sombra aluada a mim chegava
Com um breve e horrendo riso a mim desprezava
E aquela sombra em mim tocou, temi
Dela não pude livrar-me, moribundo caí
Meu corpo jamais dali se levantou, não mais
E o silêncio na viela, decretou a paz
Ao lembrar o antigo verso: Nunca mais.
L. A. Freire

Banho de Cheiro

Eneida de Moraes é meu rio. Nela mergulhei, e dela resurgi outra mulher.⁣

Em Banho de Cheiro, seu livro memorialista, Eneida nos conta suas memórias alegres e tristes tendo como cenário a Belém de sua infância, de sua juventude e vida madura.⁣

Da infância feliz e protegida pelo dinheiro do pai numa Belém do final do ciclo da borracha, Eneida nos conta de suas brincadeiras, da ida ao colégio e da marcante relação com a mãe.⁣

Aos poucos ela vai, por meio de sua escrita quase lírica, mostrando como amadureceu, como seus pensamentos não estavam naquele tempo. Eneida era a frente de seu tempo. Suas memórias tem algo que lembra as fábulas, pois sempre terminam com uma moral.⁣

Banho de Cheiro remete ao pensamento de pertencer a um lugar, a ter raízes e ter uma cultura que traz sua identidade. Fala de suas memórias, mas podia ser de qualquer um, parece uma lembrança antiga do leitor.⁣

Eneida é puro encantamento,⁣
Ternura e sentimentos.⁣
Colo de mãe.⁣
Ela é a voz de uma e de muitas,⁣
Mulheres puras e perdidas.⁣
Eneida é Belém do Pará,⁣
Parte do Rio e de todo Brasil.⁣
Eneida é alegria e resistência.⁣
Subversiva.⁣
Sobreversos⁣
É reverso.⁣
Eneida foi uma princesa,⁣
Sem príncipe, ⁣
Sem sapos, ⁣
Sem dragões.⁣
Uma mulher demais⁣
Foi Eneida de Moraes.⁣

*Texto produzido após o encontro do mês de agosto do Clube de Leitura Leia Mulheres Belém.

 

CHAMADA para Antologia de TERROR PARAENSE

Uma das mais recentes editoras que surgiram no cena paraense – a Pará.grafo editora – está trazendo uma chamada para a inscrição de material inédito no gênero conto-terror. Uma ótima oportunidade para jovens (ou nem tanto assim) escritores divulgarem seus trabalhos.

Texto retirado do instagram da editora:

Iniciaram as inscrições para a antologia de contos TERROR NA AMAZÔNIA. 🕷☠️👹🧟‍♀️
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Participe! As inscrições vão até o dia 20 de agosto de 2019. Veja o regulamento no site:
https://www.e-paragrafo.com.br/blog
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A Amazônia é um mundo místico e desconhecido, lar de inúmeras criaturas hostis e — dizem — sobrenaturais. Durante séculos, histórias foram contadas sobre cobras gigantes que habitam o fundo dos rios, animais selvagens que espreitam da escuridão da selva, entidades não humanas que assombram os moradores das aldeias e vilas. Figuras lendárias como Saci, Matinta Pereira, Mapinguari, Sereias e Muiraquitã estão presentes no imaginário e nos pesadelos daqueles que vivem embrenhados nesse universo.
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A antologia TERROR NA AMAZÔNIA, organizada pelo escritor e editor Girotto Brito, busca contos (inéditos!) sobrenaturais, de terror, horror cósmico e suspense, que sejam ambientados na Amazônia e/ou narrem as lendas amazônicas em suas versões mais sinistras e amedrontadoras.

 

[Uma reportagem de Baleia, a cadela]

Oficina de Leitura e Escrita Criativa – Com Mayara La-Rocque

 

Nesta primeira semana do mês de junho do ano da (des)graça de doismilledezenove, a poeta e educadora Mayara La-Rocque inicia mais uma oficina voltada para uma busca/aprendizado de produções de textos literários, poéticos e patéticos (no bom e velho sentido grego). A oficina será de segunda a sexta, na parte mais aperreada da tarde. O local? A ilustríssima Casa da Linguagem, localizada na boca desdentada da avenida nazaré, é bem na esquina: ao lado da Praça da República e de fronte para uma das sobreviventes do clã Y. Yamada.

Sobre a bendita oficina (o imbróglio em si), Mayara falou (bem floreado) assim:

A Oficina de Leitura e Escrita Criativa é um laboratório que intenta mediar percursos sensíveis de leitura e diálogo acerca da linguagem e das potencialidades de manejo com a palavra poética. Com caráter de experimentação, imersão, rascunho, esboço e diário, a oficina tem como intuito provocar/pesquisar o lugar afetivo e poético de cada participante como um processo de criação onde cada um será impelido a encontrar os caminhos de sua própria escrita e autoexpressão, em consonância com as dinâmicas e vivências trocadas em grupo.

Participem, divulguem, comentem!

Espero vocês por lá! (sentado…no chão, é claro; do jeito que aqueles bancos de madeira me molestam a bunda…bem, pelo menos o jardinzinho e o coreto-anão residentes na Casa da Linguagem são bem simpáticos, sim, ao menos isto…)

Mayara La-Rocque é escritora, formada em Letras com habilitação em língua francesa pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Colaborou com a revista literária KamikASES, participou da Antologia Literária do III prêmio PROEX de Literatura da UFPA e, em 2015, ganhou a 4ª edição do mesmo prêmio, na categoria contos. Em 2016, produziu o livro artesanal “Atravessa a tua viagem” e, em 2017, publicou a plaquete literária “Uma luminária pensa no céu”, pela Editora Escriba. Atualmente, ministra cursos voltados para criação e produção literária.

Baleia, a cadela

Fumaça no Quintal [trecho de conto]

[Olá pessoal! Mando o inicio de um conto meu “Fumaça no Quintal”, escrito lá por 2017/2018. Espero que apreciem!]

 

FUMAÇA NO QUINTAL

Mais um dia canhestro arremedando os anteriores. Prometendo surpresas raquíticas e inúteis, como uma chuvinha fraca no ardor da tarde, que nem pra fazer aparecer um meio arco-íris se presta. Foi o que pensei ao despertar. Acordei devia ser umas seis horas; pelas frestas do telhado já se notava uma luz cinzenta, fria e pálida (havia outros adjetivos para a luz só que menos eloquentes e que não têm porque fazer figuração neste relato. Quer dizer… escrevi sem pensar. Isto é um relato? Não sei ao certo. Desconheço acertos. Há erros, isto sim, isto é a verdade) Mais uma hora e me levanto, pensei. Despertar adiando, eis a tragédia capenga que rasteja incessantemente pelos meus dias, como um mendigo perambulando sempre pela mesma área, no mesmo ponto.

Alguém passa/Pensando/No eterno.

Montei e desmontei esses versinhos. Não lembro onde que eu li isso, certamente sobejo de algum poeta frustrado, um desses tipos que servem pra engrossar volume de antologia literária regional. O que significava? Aí surgiu o sol dourando sem literatura, senti uma frescura nos ossos dos pés e me espichei como um gato. Não gosto de gatos, são muito indolentes pro meu gosto; entretanto, possuem uma sensualidade assustadora que me excita mais do que devia. Com cuidado, o pé procurou as sandálias pelo chão frio, se meteu debaixo da cama, vacilante, a areia fininha grudando desde cedo nos dedos, irritante! O pé esquerdo encontra a sandália do direito.

Pulei da cama, escancarei as janelas e dei uma mijada, por ali mesmo, no quintal. Formou um laguinho e as formigas, curiosas, vieram logo dar uma espiada. Averiguaram a jazida cor de amarelo-ovo-cozido, pareciam interessadas em transportar o liquido para a artéria de terra instalada na parede. Na verdade tal túnel era de propriedade dos cupins: trabalharam, projetaram e, por muitos anos, utilizaram-no para o interesse de seu povo. Até que veio a peste e dizimou tudo quanto era espécie destes nobres bichinhos da terra, desta pelo menos, e sobrevieram as formigas com discreto gesto de ocupação dos empreendimentos, que os cupins, gênios incompreendidos mesmo depois de mortos, relegaram ao quintal de casa.

É uma bela história, mas como termina? Cheguei à conclusão: história nenhuma possui desfecho; mas isso não me consola. Lentamente fui peneirando a ideia de incompletude, queria ver onde ia dar, mas o pensamento acabou adentrando num atalho obscuro. Aí a velha gritou meu nome, já tinha preparado o café. A velha. Ela é muito esquisita, coitada, parece uma meia suja esquecida num sapato velho, não vai para a igreja como todas as velhotas daqui, tampouco se dá com elas, possui até certo desprezo, sempre diz que não é nem uma galinha de cu caído pra ficar cacarejando alto em missas, cantando piedade, alteando glórias, ciscando salvação. Sua cara é tão cheia de dobras que parece a escadaria larga de algum antigo templo, oculto da vista de tudo e todos, quase não sai desta propriedade que herdou de um parente desconhecido que já morreu. Não sei o que esta velha é para mim; a estimo muito, claro, mas desconheço qualquer nó de sangue que nos una. Desde que me lembro sempre a chamei pelos mais variados nomes: tia, avó, tia-avó, mãe, senhora; e desconfio que se começasse a chama-la de cachorro, periquito, papagaio, saúva, não estranharia nada. É sobretudo uma mulher singular.

Olho novamente pela janela. A imagem do quintal me deixa melancólico, ainda mais quando é cedo ou tarde demais. Parece uma pintura, mas é uma imagem única, de tal modo, que nunca deve ter sido pintada. Como não nasci com mão para aquarelas, mas sim para querelas, tentarei na medida do possível (ou seja: até que a tarefa se torne aborrecida e eu vá procurar fazer outra coisa) descrevê-la tendo a melhor das intenções, que é não a de ser fiel a realidade, mas a de transmitir nitidamente o contorno sombreado e impreciso das plantas, pedras e do pau seco ao centro, antigamente um jambeiro infrutífero. Da janela onde, privilegiadamente, revejo a paisagem naturalmente domesticada chamada de quintal, observo o muro baixo, passarela para as gatas da vizinha, ponto de pouso para os passarinhos e autoestrada para os ratos. Um muro, em sua quase totalidade, úmido pelo contato tão próximo das plantas que o roçam obscenamente em seus cantos mais escuros. As bordas do terreno se mostram taludas e florescentes; o centro é mais seco, daninhas pisadas e lascas de lajotas. De vez em quando um novo vulcãozinho expelindo saúva fresca, situado pelo toco do jambeiro. Ex-jambeiro. Alma morta.

 

O pires da xícara está desaparecido. Tomo café com bolacha Marília. A Tia (hoje vou chamar a Velha de Tia) A Tia ficou puta quando reparou a embalagem com os dizeres: BOLACHA MARÍLIA, TORRADINHA “Desde quando a gente come isso aqui em casa?” Pergunta natural, mas ela falou com tal rompância, com tanto condimento de brutalidade, que fiquei caiado de espanto. “Esta marca…” Pegou uma do pacote e levou á boca. “Bolacha velha ruim. Disse que era pra comprar a outra costumeira” Pois nem reparei a diferença. O que é que a bolacha tem? Vejo sua fachada: cinco andares, cada andar com cinco janelas, totalizando 25 aberturas, que alimento mais arejado!  E a tia mesmo assim a despreza! Qual a opinião das formigas sobre isto? Corri para o quarto com migalhas na mão. As pequenas haviam desaparecido, e o meu xixi, ao que tudo indicava, a terra já bebera.

A manhã está á toda: a luz acorda por completo, as sombras se espreguiçam em frente dos muros, das árvores e de outros troços mais absurdos. Não há mais tempo a perder para alguns, há tempo suficiente para outros, e – todos – contam com ele.

Vasculhei o dia.

Interessado no assassinato da barata. Corpo encontrado num balde d’água, boiando, umbigo pra cima, líquido branco recobria parte de sua face; a morta apresentava sinais de decomposição, antenas separadas da cabeça, dois gravetos flutuando na água. Daqui dá pra espremer uma história, pensei. Á maneira daqueles programas de TV em que aparecem mortes sobre mortes, como se fossem enredos por cima de enredos, empilhados, tantas versões. O melhor é os desaparecidos: com quem por último? Era famoso? As câmeras de segurança! Será que o próprio parente… Há, barata! Sua morte não me diz nada, mas a história por trás… qual será?

De repente o ar se torna nublado. A vizinha botou fogo nas folhas secas, já é a segunda vez que faz isso nesta semana, parece até que tem tanta coisa pra queimar. “Essa afrescalhada tem mais que fazer não? Acabei de pendurar as roupas… Ora merda” Pobre Tia. Impossível continuar no quintal. Dentro é quase tão insuportável como fora de casa, a fumaça espessa, indeciso se fechava ou abria as janelas, prendo a respiração, fecho os olhos, sufoco. “Como fede! Aposto que tá queimando papel de bunda, como a pessoa pode ser tão ordinária, menina?” Será? Analisando o muro, há vários buracos secretos, me aconchego numa vista para receber á imagem do quintal alheio. A vizinha: nunca pessoalmente. Ela queima com prazer, os braços estendidos, como se glórias desse, a quem? Cai um cisco no olho, coça, esfrego num murro, nada enxergo.

 

Atravesso à tarde que nem uma osga sem rabo enfrenta o descampado da parede, devagar quase parando. No centro da mesa da cozinha, a garrafona de água suava. Apesar da quentura infernal o liquido estava por demais gelado, desceu ralando o joelho da minha garganta. Dor de cabeça deixou a vontade mofina, larguei um sono ali mesmo na cozinha, encostado ao fogão. Sono de pedra, sonho de musgo. A dormida durou até a boca da noite se alastrar num sorriso de estrelas. Nestas horas sempre me detenho na vaga sensação de desperdício; saio para o quintal, me vejo mijando nas teias de aranha abandonadas, construídas sobre as plantas da Tia. Engraçado, o laguinho brilha como se estivesse de manhã. O rebanho de formigas se achega, rebanho não, multidão. Mesmo na escuridão da de ver o montueiro, se espraiando em torno do meu ouro morno. Carregam cuias minúsculas, pouco a pouco, mas ligeiramente, rebocam todo o meu xixi. Vão seguindo. É bonito. Lembra a procissão luminosa de Nossa Senhora, ou um bando de vagalumes aleijados da asa caminhando de emigração. Em que direção? Uns vão para o jambeiro, ex-jambeiro, pau-seco, enfim. Outros se dispersam pelas veias da terra, e ainda há um grupo que se direcionam ao muro, para a casa da vizinha. A fumaça recomeça. Entro em casa. Acendo a luz e fecho as portas e janelas.

Raul Lucas Padilha Costa